quinta-feira, 2 de setembro de 2010
EM TEMPO DE FOGO NO MATO
Na tenda onde eu morava:
Uma cerca verde, de flores vermelhinhas espinhentas me separava,
Do grande mato que via
Ali até o mato grande tão amado me protegia
Ria quando ele dançava leve no vento com um movimento
Delicado aerodinâmico, estético, empinado,
Em sutileza de linhas contemporâneas,
O arrojado mato tornou-se também minha planta querida.
Quando chegou o inverno
O que era mato verde virou mato roxo.
Fiquei ainda mais apaixonada!
Brotavam dele sementinhas brancas,
E de manhã bem cedo tudo ainda enevoado
Ele ali vaidoso encantado recebia contente
A visita animada de centenas de passarinhos
Meu Deus como agradecia aquele mato onde eu me escondia.
Ontem, depois de sentir Obá, Oxum e Oiá.
Mulheres de Xangô que em poesia me diziam do amor que sentiam
Só pela justiça lutavam.
Saí procurando um livro e sabem as deusas que o acaso mandou
Eu conhecer nesse dia, a Senhora do Maracatu.
Em plena Graça da livraria, só falamos de poesia.
Voltei feliz para tenda onde o tema esperado era o Xangô amado. Que susto!
O cheiro de queimado e, tudo estava coberto de fuligem.
Como já era noite nada podia ver, mas temia...
Virei à madrugada escrevendo pedindo a Xangô um pouquinho do seu calor,
Afinal esperava sua luz de raios apontando e trovões que anunciassem
Um pouco de justiça pro trabalho
De ver logo plantado um jardim de amor temperado.
Acordei cedo; dormindo, não perco tempo,
Abri a cortina pra compartilhar com o mato
O Bom Dia animado, cantado pela ninhada dos passarinhos.
Como sempre, o sol entraria.
Colocava a cabeça onde antes estava o pé,
Depois devagar tirava as cobertas, depois a roupa,
Ficando, assim, livre, despida, entregue ao sol envolvida
Sentindo nua a liberdade pelo mato acolhida.
Que susto, que tormenta mal podia entender o que Xangô queria!
Queimaram grande parte do mato querido
E eu que era só na tenda, chorava tanto ali me sentindo abandonada!
Que justiça é essa, Xangô? Uma enorme casa onde via homens no telhado,
Malditas marteladas batiam construindo a grande morada
De quem despejou o mato sem saber a dor que ele e eu sentíamos
Vendo o sinal revelado que já era acabado:
O tempo da tenda onde escrevia com silêncio e fogo, justo o amor tão sonhado.
MySal
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