Ai, ai, ai, ai! Dias animados de dançar com uma força creoula que ascende do quadril e tudo move. Salta de algum lugar uma energia como se represada, muito maior do que em qualquer outro dia, neste tempo explode a alegria.
Em outro tempo os jovens brincavam em clubes, eu tinha um grupo animado, um namorado, um bem achado em outro carnaval e, lá estávamos eu e aquele ”meu pedaço” num camarote, muitos amigos com direito a um músico de bateria marcando um bumbo, aquele era o ritmo do meu coração, o ritmo da emoção. No último dia cantavam: “ai, ai, ai, ai, tá chegando a hora...” Meu Deus, eu acreditava talvez que a alegria iria embora enfim, eu sempre chorava nessa hora.
Tudo girava em minha cabeça como música em torno da fantasia; eu criava e me sentia havaiana, índia, colombina, sem falar do bloco do pijama que saia antes da escola de samba. Lá ia eu; cocar escandaloso de índia, de pintora, lá ia eu, na avenida de shortinho bustiê, boina e bota carregando feliz um escândalo de cores no esplendor de aquarela. Lembro-me neste desfile de escola de samba estar sendo filmada e eis que, de repente, saiu de trás da câmera um ser que gritou: Minha Terapeuta! Eu, sorrindo continuei dançando em nome da arte que cria todas as ilusões, afinal eu ali era a pintora, a artista. Valeu a pena!
O carnaval é um tempo para viver a arte coletivamente, um encontro onde tudo pode ser criado, à partir da fantasia vivida na música, dança, cores e formas como um grito de possibilidades em expressão.
Com o tempo, a alegria não acaba, nem a arte, e sim, expande-se a criação na mesma proporção que se amplia a consciência. Aquela explosão de energia que vivi em nome da folia, hoje se arrisca em novas formas e experiências. Afinal, o tempo vai afirmando; se o grito coletivo é força da arte que cria e não da fantasia, o pulo mais alto se dá quando a arte rebola com alegria em direção à verdadeira essência que tudo cria; o amor na realidade. A fantasia pode durar, só por três dias.
Falando em amor; houve entre outros carnavais um memorável: Voltou de mansinho, depois de muito tempo, o meu primeiro amor, veio vindo, gostando de estar, ia ficando sempre mais um pouquinho, enquanto eu recriava o encanto de amar. Um encontro cheio de histórias vividas ou não, eram compartilhadas com muita sintonia, afinidades; a mesma paixão pela natureza e um bom gosto pela arte na boa mesa, na poesia filmes e música. Faltava o grande teste, para eternizar um grande amor, a alegria. Chegou o carnaval, pra mim foi o que os franceses chamam “goût”, em português o gosto, ou um pouco mais, aquele gosto que inspira os sentidos. É assim, pra gente como eu, que ama e gosta de carnaval, sempre revive o som do bumbo no coração e sempre chora quando “... tá chegando a hora, o dia já vem raiando meu bem...”. Enfim, quem veste à fantasia tem que passar e ir embora!
O carnaval também passa, fica o momento de poesia, ou será de fantasia? Não importa a resposta, vale o que se transforma ou se recria. É carnaval, deixo-me lavar com água de cheiro, andam recriando o amor, cantando pela proteção à natureza, dançando na tenda dos milagres que inspira a luz, enquanto eu vou deixando de saudade e também essa conversa.
“Tá chegando a hora” afinal com sensibilidade, agente abraça a folia e dança a felicidade, à arte de renascer temperado no axé e dendê.
MySal
MySal
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