quarta-feira, 25 de novembro de 2009

SEDUÇÃO
Só alguém que não ama a si próprio, pode perder-se no outro; pois ser assim absorvido talvez seja sua forma de fuga de si mesmo.
Sedução. Uma questão que reflete o tempo a educação, o amor.
Em tempo onde vigora a sedução não há amor.
Assistimos hoje, aos heróis da conquista, como personagens de uma era passada e ultrapassada. Não ao herói capaz de vencer a própria sombra de medo e auto- realização. Desejos sinceros da alma são trocados por construções heróicas, movidos por sedução. Seduzidos e sedutores atuam somente em nome da ilusão de ser, possuem e são possuídos.
O herói do séc. XXI deveria ser um herói criativo, cuidadoso ao exercitar-se em sua imaginação e significações como canal de expressões pessoais e criativas. Em busca de encontrar sentido e direção para orientar-se como ser no mundo deveria atuar nosso herói. Haveria mais integridade, ele seria assim imitado cultuado, o que talvez custasse caro, o preço da liberdade, de se encorajar vencer os medos, ousar as possíveis diferenças e possibilidades de ser.
Porém, vivemos um tempo onde não se prioriza uma educação reflexiva e sim, programa-se o ser para mais e mais somar conquistas. Isso não incomoda, protege o sistema. Ninguém questiona os estigmas, as produções e atuações, encantadas, enlatadas, somente continuamos aprendendo com elas a decorar enfeitando as máscaras de apaixonados como se participássemos de um eterno carnaval veneziano.
Nem mais vale o que se deseja ter, vende-se diretamente, o conceito, não é o carro preciso é o símbolo que ele representa; a modernidade, a liberdade ou a força. Agente ri ao ver as propagandas, e paga-se caro para comprar um desses símbolos. Mas, um símbolo detém uma energia e nunca esteve à venda, e sim disponível no tempo para quem aceita a jornada da conquista verdadeira - ser livre - para responsabilizar-se pela própria realização como pessoa.
Uma pessoa, verdadeira é heróica se luta pelo desejo de apenas participar criativa e responsavelmente, da própria vida, depois junto ao outro, a cultura, ou da sociedade, e inclui-se no tempo onde a natureza também clama por amor e participação responsável.
Onde ouvimos os novos poetas corajosos em seu discurso de verdadeira sensibilidade? Hoje se copia e colam-se os sentimentos, põe-se no PowerPoint com música e distribui-se amor, será? Todos os amigos se tratam com “oi amor”, “amado/a”... Será estaremos assim amando tanto ou impregnando as relações de atitudes fúteis e irresponsáveis. Creio que a única intenção é do ego, egoísta, encantar, seduzir para nutrir-se a carência vaidosamente, com respostas igualmente, encantadas de amar. Sedução, não amor.
Sedução é a chave, representar e vender a imagem, da palavra, da forma, do corpo do modo que é moda, do gênero, imagem, impressão, parecer, não ser.
Assim, gerações após gerações não realizadas plantaram medo, impregnando seus filhos de desejos de “sucessão”, sedutora idéia de conquista.
Quando libertaremos nosso espírito histórico e mítico para resgatar de uma antiguidade perdida na memória, um mito heróico a revelar-se capaz de participar da criação e, fecundar a arte, de amar, de viver sem medo, para responsavelmente participar da vida.
É isso: vai todo mundo “ficando”, viciando o não comprometimento consigo mesmo, e sendo absorvido pelo outro por não ser capaz nem só de amar a si mesmo. Seguiremos conquistando e continuando a busca, à eterna falácia, desejo de amar.
Enquanto isso eu vou ficando também, por aqui, refletindo, e esperando ver despertarem heróis criativos, que sejam livres de culpas nascidas de desejos fantásticos sem realizações, eles preservarão a existência. Com eles, surgirão pessoas reais, capazes de vencer medos e viver mais os sentimentos. Não ter, só amar. Aprenderão então, às próximas gerações um pouco mais da coragem para viver as diferenças, o amor a entrega participativa e responsável.
MySal

2 comentários:

  1. Parabens! Você fez uma síntese perfeita do que esta se passando no mundo de hoje. Me orgulho das suas palavras, tão profundas e precisas, apontando e mostrando o foco do quão está perdido a essência da sedução, que acaba se misturando com o amor, e que são dos sentimentos envoltos com ações tão distintas. Vou deixar em ênfase o seu chamariz que é a questão que se esta perdida para que todos lembrem e a reencontre.

    "Só alguém que não ama a si próprio, pode perder-se no outro"

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  2. Sensacional! Um dos grandes mistérios, resumido, retratado, revelado em 624 palavras e infinitas possibilidades.

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